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Mericismo – Meri…quê?

De entre os transtornos alimentares, encontra-se o Mericismo, classificado no DSM-V como Transtorno de Ruminação.

Mericismo – Meri…quê?

Um bebé que se alimenta bem é um bebé feliz (…) e gosta da experiência de ser alimentado “ (A. Freud)

Os transtornos alimentares são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação, ou comportamentos relacionados, resultando num consumo ou absorção alterada de alimentos, comprometendo significativamente a saúde física e o comportamento psicossocial.

De entre os transtornos alimentares, encontra-se o Mericismo, classificado no DSM-V como Transtorno de Ruminação.

Tendo em conta o normal desenvolvimento de uma criança, de um modo geral e resumido, os lactentes têm capacidades inatas de sucção e deglutição que regulam a ingestão de alimentos, de acordo com as suas necessidades.

No final do 1º ano de vida verifica-se uma diminuição do interesse da criança pela alimentação e diminuição do apetite, devido à sua crescente capacidade de distinção entre alimentação – alimento – dador de cuidados, e devido à sua capacidade para diferenciar as emoções desencadeadas por cada um deles.

Durante o 2º ano de vida, aquando da aquisição de sentimentos de identidade própria e autonomia, como formas de afirmação da sua vontade e manifestação do seu desejo de independência, surgem comportamentos de oposição, birras, teimosia e recusas em se alimentar, sendo este facto, muitas vezes, gerador de stress para os pais.

Estes ciclos de fome-saciedade, de substituição de sensações de desconforto (fome) pelo bem-estar e conforto (satisfação alimentar) contribuem para o desenvolvimento dos comportamentos alimentares normais. No entanto, apesar destas variações no comportamento alimentar corresponderem a fases normais do desenvolvimento psíquico, devendo os pais estar informados de tal facto, podem também ser cruciais para o desenvolvimento de dificuldades alimentares.

O mericismo consiste na regurgitação e ruminação repetida dos alimentos, durante pelo menos um mês, depois de um funcionamento normal. Os alimentos voltam à boca sem náuseas, vómitos, repugnância ou outros problemas gatrointestinais associados, sendo que a criança os cospe ou, mais frequentemente, mastiga-os ou deglute-os novamente.

Esta patologia tem inicio, normalmente, na 1ª infância (geralmente entre os 3 e os 12 meses) ou inicio da 2ª, podendo também surgir (mais raramente) na adolescência ou idade adulta.

Oa lactentes com transtorno de ruminação exibem, geralmente, uma postura característica (tensionar e arquear as costas com a cabeça flectida para trás, fazendo movimentos de sucção com a língua e obtendo prazer e satisfação com esta atividade), podendo também ocorrer irritação ou ficarem famintos entre os episódios de regurgitação.

A ruminação e manipulação dos alimentos ocorrem, normalmente quando a criança está sozinha, adoptando uma postura de vazio perante o mundo que a rodeia, como se se virasse para dentro do seu mundo interno e anulasse, momentaneamente, o contacto com o mundo exterior.

Mastigar, regurgitar e repetir o comportamento com o mesmo material é sinal de uma desorganização psicológica.

A sua causa é desconhecida, parecendo estar associada a problemas como a falta de estimulação da criança, negligência, depressão infantil, situações de vida stressantes e dificuldades significativas nas relações familiares.

O transtorno de ruminação pode ser psicogénico (ligada a perturbações na relação pais-filhos) ou auto-estimulatório, parecendo ter uma função calmante e estimulante (tal como a de outros comportamentos motores repetitivos).

Em virtude do aspecto social indesejável do comportamento, adolescentes e adultos podem evitar alimentar-se em frente a outras pessoas, podendo evitar situações sociais.

Critérios Diagnósticos (DSM-V)

A. Regurgitação repetida de alimento durante um período mínimo de um mês. O alimento regurgitado pode ser remastigado, novamente deglutido ou cuspido.
B. A regurgitação repetida não é atribuível a uma condição gastrintestinal ou a outra condição médica (p. ex., refluxo gastroesofágico, estenose do piloro).
C. A perturbação alimentar não ocorre exclusivamente durante o curso de anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar ou transtorno alimentar restritivo/evitativo.
D. Se os sintomas ocorrerem no contexto de outro transtorno mental (p. ex., deficiência intelectual [transtorno do desenvolvimento inteletual] ou outro transtorno do neurodesenvolvimento), eles são suficientemente graves para justificar atenção clínica adicional.

Em remissão: Depois de terem sido preenchidos os critérios para transtorno de ruminação, esses critérios não foram mais preenchidos por um período de tempo sustentado.

O Diagnóstico desta patologia passa, primeiramente, pelo despiste de causas físicas e anomalias do aparelho digestivo presentes à nascença.

O mericismo ou transtorno de ruminação, pode apresentar consequências graves para a saúde da criança, tendo uma taxa de mortalidade até 25%. A criança pode apresentar desnutrição, mesmo quando ingerindo alimentos em grande quantidade, uma vez que a regurgitação, normalmente, ocorre imediatamente a seguir à ingestão dos alimentos que são apenas parcialmente digeridos; baixa resistência à doença ou atrasos no desenvolvimento, crescimento e aprendizagem.

Os pais podem vivenciar o comportamento dos seus filhos com elevada frustração, através da associação desta recusa em se alimentar, com sentimentos de insuficiência no desempenho das tarefas parentais, podendo levar a baixa auto-estima dos progenitores. Podem manifestar zanga, insistência, comportamentos agressivos ou de evitamento, que contribuem para a manutenção dos comportamentos por parte da criança, podendo agravar os mesmos e ter influência negativa na relação mãe/pai-criança.

Intervenção

O tratamento do mericismo pode ser efetuado recorrendo a técnicas comportamentais, tais como a Terapia Aversiva (introdução de consequências negativas associadas ao comportamento de regurgitação, e positivas com o desempenho de um comportamento adequado). Por outro lado, devido ao sofrimento que pode originar nos pais, e ao impacto que o seu comportamento pode ter nas crianças, pode ser útil a avaliação da dinâmica familiar, o melhoramento do ambiente familiar e apoio psicoterapêutico para os pais. A medicação também surge como possível forma de tratamento.

Em condições normais, a situação alimentar é um momento gratificante para a mãe e para o bebé, muito relevante nas trocas afetivas entre ambos e no fortalecimento do vinculo mãe-bebé, sendo de extrema importância a identificação e tratamento de patologias relacionadas.

Obrigado pelo vosso interesse e espero ver-vos em breve na nossa clínica em Lisboa.

Dr. Sérgio Filipe Pereira – Psicólogo em Lisboa
Clínica de psicologia ITAD
Psicólogo, Terapeuta da Fala e Terapeuta Ocupacional
Psicóloga na Clínica do Itad em Lisboa
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